FERNANDO GOMES
ENSAIAR, ENSAIAR, ENSAIAR!
Fernando Gomes é um Mestre. No sentido em que esta expressão, apesar das modas, é entendida pelo mester teatral: Mestre das ‘tábuas’. O teatro gomesiano (como lhe chamo para ‘picar’ o Fernando) é, tal como o seu autor, heterodoxo, de raiz empírica, e pouco dado a classificações. Mas tudo nas suas criações obedece a uma partitura arquitetada e dirigida por ele, e que, apesar de não estar impressa em lado nenhum, é incrivelmente nítida e quase palpável. A tal ponto, que ele consegue fazer parecer em cena que é quase anárquico e acidental o que foi exaustivamente definido e apurado, podendo até provocar no público uma falsa (e injusta, para quem faz) sensação de que aquilo que se vê no palco é fácil de fazer.
Mas, frenético e rigoroso, o teatro gomesiano é também feito de contrapontos, como os momentos em que ele provoca uma paragem que, começando por estar prevista na peça, é sustentada pelo improviso decorrente do texto e pela interação com o público, resultando em cenas aparentemente inusitadas. Improvisador nato, à capacidade singular que ele tem de sustentar estes momentos não é alheia a sua experiência de muitos anos ligada ao ‘café-teatro’, estilo que teve alguma implantação em Portugal nas décadas de 80 e 90 do século XX, e cujo pioneirismo no nosso país lhe é justamente atribuído.
Admirado por um público vasto, o teatro de Fernando Gomes ainda é, no entanto, alvo do preconceito intelectual de uma minoria de gente que orbita no setor teatral português e que, em muitos casos, nunca lhe viu sequer um espetáculo. Ou viu e poderá ter-se sentido desconsiderada por este ator, autor e encenador que ousa fazer teatro para o povo sem pensar nas elites — um feito corajoso num país como o nosso. Também por isso, este criador é insuperável no teatro que faz e tem um estilo só seu — que artista não aspira a tanto? Fernando Gomes é, ainda, um fantástico pedagogo. Informal, já que não tem a pretensão de ensinar nada, nunca, a ninguém. Mas quando trabalhamos com ele, sentimos o que nele transborda a todo o tempo em que está a trabalhar: os seus apuradíssimos sentidos de espaço, ritmo, música, texto, encenação, interpretação, gestualidade, oralidade. E as suas: consolidada cultura, afiada inteligência, enorme exigência, incansável rigor e incomparável autenticidade.
Verdadeira e inspiradora Mestria teatral. Percurso e obra a que sei que a História do teatro português um dia fará justiça. Posteridade para a qual o Fernando Gomes se está, positivamente, nas tintas. Porque não tem tempo para “essas coisas”. O que ele tem — sempre, muito — e com a urgência de uma criança que sai da escola a correr para o campo da bola, é de… Ensaiar, ensaiar, ensaiar! E ainda bem.
Ricardo Simões
Director Artístico do Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana