LIA GAMA
Bom dia, Lia
Se o nosso grande amigo Jorge Silva Melo estivesse cá tê-lo-ias convidado para escrever este texto, e seria de certeza belíssimo, como tudo o que o Jorge fazia!
E é assim que me calha em sorte a aventura de escrever sobre ti! Eu, espectador anónimo! A imagem mais antiga que tenho foi na Casa da Comédia (finais dos anos 70?). Saudades, do Ricardo Pais; linda, vestida de azul, cantavas um tango de Gardel: Fumando espero. Depois, na passagem pelo Teatro da Graça, A porta fechada, encenação de Jorge Listopad. Em seguida, As lágrimas amargas de Petra von Kant, Fassbinder; O país do dragão, Tennessee Wiliams — encenações do grande Carlos Fernando.
Com o Carlos Avilez também vi alguns espectáculos muito bons: Rei Lear, Shakespeare; O balcão, de Genet, e O pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno. Numa breve passagem pelo Teatro Cornucópia, maravilhosa nos Pequenos Burgueses de Gorki; Ah Q!; de Jean Jourdeil; Casimiro e Carolina, de Ödön von Horvát — encenações de Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo.
Destaco a tua belíssima interpretação na peça A noite é mãe do dia, de Lars Noren, com encenação da Solveig Nordlund, que vi no CCB — sala grande, cheio. Não vi Oh que ricos dias, de Beckett (tenho bem guardada a memória da Glicínia na Casa da Comédia, final dos anos 60).
E finalmente chegam os Artista Unidos / Jorge Silva Melo; tudo começou com António um rapaz de Lisboa (teatro e cinema) e continuou com Aos que vierem depois de nós – canções do pobre BB, de Bertolt Brecht, que vi no Fórum do Seixal; O nosso hóspede de (lembram-se?) Joe Orton; Conferência de imprensa e outras aldrabices (vários autores); Esta noite improvisa-se e Seis personagens em busca de um autor, de Pirandello; Rei Édipo, de Sófocles; O quarto, de Harold Pinter; Hedda, de José Maria Vieira Mendes — tudo encenações do Jorge Silva Melo.
Grande participação no cinema. Destaco: Kilas, o mau da fita, de José Fonseca Costa; Crónica dos bons malandros e Nós por cá todos bem, de Fernando Lopes; Nem pássaro nem peixe, Viagem para a felicidade, de Solveig Nordlund; Amor de perdição e Francisca, de Manuel Oliveira; Tempos difíceis, de João Botelho; e Raiva, de Sérgio Tréfaut. Finalmente o grande espetáculo: Frágil/Anos 80 (lembram-se?): Lia Gama a cantar canções de Amor!
A Lia descia do tecto, com um lindo vestido preto, e (en)cantava-nos: outra vez Fumando, espero, My man, Balada da Rita — e a interpretação magnífica (a Lia tem uma grande voz mas é sobretudo uma grande actriz) de Surabaya Johnny, de Kurt Weil. De referir que a Margarida Martins — na altura porteira do Frágil — me deixou entrar três vezes para ver o espectáculo!
E, falando das noites loucas dos anos 80, lembram-se da Lia no After Eight, e finalmente na Lontra até às tantas?!
Finalmente, não resisto a contar uma história que me foi contada pela Lia. Chegada a Lisboa, nos finais dos anos 50, queria ter como nome artístico Leah, inspirada na obra de José Rodrigues Miguéis, Leah e outras histórias. Numa mesa de poetas, no café Monte Carlo, falou da sua preferência. Carlos Oliveira sugeriu “Lia” — e assim ficou!
Bom dia, Lia.